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outubro 24, 2006

O que tem acontecido na Geórgia

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Você já oubiu falar de um paisinho que fica no mar negro que era uma antiga provínc... ops, república soviética e que hoje em dia se chama Geórgia? Claro que não. Se você souber história da II Guerra Mundial, no máximo vai saber que Stalin nasceu lá. Já é um bom começo, talvez…

Mas enfim, o que interessa é que esta região do planeta, apesar de semi-desconhecida do público (afinal de contas, nenhuma série americana jamais foi gravado lá, nem Lost, nem 24 Horas, nem Alias...) tem um poder imenso de causar tretas muito sérias.

Explico: este paisinho, exatamente por sempre ter sido pequenino e ter sido pego de calças curtas, sem dinheiro, sem exército e sem armas para se defender com o fim da Guerra Fria (de uma maneira similar ao que aconteceu na Bósnia), acabou sendo invadido pelo antigo poder metropolitano, no caso a Rússia.

Essa invasão, resultado da guerra civil pós-independência que arrasou a Geórgia entre 1991 e 1993, deu a Moscou dois pedacinhos de territórios, mas estrategicamente de grande importância: a Abkházia (ou Abecásia, fica ao gosto do freguês) e a Ossétia do Sul. Originalmente essas duas regiões eram províncias internas semi-independentes (em comunistês, repúblicas socialistas autônomas) georgianas, mas que graças ao auxílio luxuoso das tropas russas acabaram virando “repúblicas não-reconhecidas” vinculadas extra-oficialmente à Rússia.

Pois bem. Essas duas regiões (que alguns dizem terem sido criadas durante os tempos da URSS devido aos princípios de “dividir para conquistar” do Kremlin) até antes da guerra tinham uma população que em sua maior parte era georgiana e queria continuar na Geórgia. Então por que isso não aconteceu?

Não aconteceu basicamente porque a Rússia sempre achou que precisava de territórios ao sul da cordilheira dos Montes Cáucasos e acesso à área do Mar Negro também ao sul destas montanhas para possivelmente formar uma “cabeça de ponte” estratégica em eventuais futuras guerras na Ásia e Europa. E para de quebra manter a Geórgia sob controle e influência contínuos também.

E foi aí que o separatismo abkházio e ossético na Geórgia nasceu, o primeiro baseado numa limpeza étnica no pior estilo Milosevic (é engraçado ver com as coisas se inter-relacionam), o segundo baseado num governo-fantoche que apesar de clamar toda a região domina algo por volta de metade dela.

Estes dois estados separatistas se parecem com mini-Uniões Soviéticas, à maneira do seu estado-não-reconhecido irmão, a Transnístria. E segundo porque, da mesma forma que acontece na região separatista da Moldávia, há todo um doublespeak dos líderes destas regiões fiéis a Moscou que falam a respeito de “independência” e “auto-determinação” quando tudo que querem mesmo é que seus territórios sejam anexados à Rússia.

Bom, tudo parecia correr num processo de conflito frio estilo taiwanês/cipriota na ex-república soviética até quando os EUA em 2003 decidiu apoiar um golpe de estado após resultados fraudulentos das eleições na Geórgia, que trouxe ao poder através da “Revolução Rosa” o atual presidente georgiano Mikheil Saakashvili, que estudou direito nos EUA e prometeu trazer a democracia de volta à Geórgia, integrá-la às instituições européias e... trazer de volta ao comando central as províncias separatistas. Foi aí que o batata começou a esquentar.

O novo governo da Geórgia até conseguiu restabelecer sem maiores problemas há dois anos atrás o controle sobre uma terceira província separatista, a Adjária, que na verdade era um feudo pessoal de um cara chamado Aslan Abashidze, que deixava seu filho passear de Lamborghini pelas avenidas de Batumi.

Mas quando chegou o caso da Abkházia e da Ossétia do Sul, a Rússia engrossou. Usando o velho e bom doublespeak de sempre, o governo russo disse “respeitar a integridade territorial da Geórgia”, mas ao mesmo tempo dizendo que “os abkházios e osséticos têm direito a auto-determinação”… dentro da Rússia, claro.

Tropas russas e políticos de origem russa ex-funcionários da KGB soviética controlam com mãos de ferro todos os governos separatistas destas duas províncias, e dizem que não vão sair de lá até um “acordo de estabilização” seja feito — traduzindo, eles nunca vão sair de lá voluntariamente, principalmente porque eles seguem ordens de Moscou, que deu de graça milhares de passaportes russos para os habitantes destas regiões durante estes anos todos e agora se diz “no dever de proteger seus compatriotas”.

Os EUA e a Europa, como é comum de acontecer, estão no geral paralisados diante disso tudo, sem saber muito o que fazer porque hoje em dia além da presença mundial norte-americana ter sido imensamente enfraquecida desde os ataques de 11 de setembro, a Rússia hoje além de armas nucleares possui petróleo e gás de sobra para vender ao mundo desenvolvido, que a despeito de qualquer discurso oficial tem ânsia imensa de consumir cada vez mais combustível fóssil (e melhor ainda para eles se esse combustível fóssil vier de um país majoritariamente não-islâmico fora da OPEP).

O poder dos petro-dólares molha muitas mãos, e abrandam muitos discursos. A Europa Ocidental, cujo eixo central Franco-Alemão quer mais mesmo é gás barato da Rússia, pouco está fazendo além de dizer para Geórgia e Rússia “manterem a calma”, mas sem apontar uma saída clara para a questão. Enquanto isso os EUA, que a princípio apoiaram e continuam apoiando a Geórgia (nem que seja “moralmente”, afinal de contas eles não querem entrar em confronto com a Rússia), também diz para os dois lados se conterem, mas não falando muita coisa além disso também.

Enfim. A situação hoje em dia é que a Rússia está usando de qualquer desculpa para estrangular economicamente a Geórgia o máximo possível, e fazendo de tudo para que os líderes e a imprensa mundiais acreditem que quem está provocando tudo isso é a “ditadura fascista expansionista” da Geórgia.

Para mim, tudo isso tem um tremendo cheiro de guerra (e/ou de intervenção sem reclamações do mundo ocidental desenvolvido) que está para acontecer.

Escrito por Marcelus G. Zalotti | outubro 24, 2006 06:06 AM

Comentário

Ótima explicação sobre a Geórgia, de que muito pouco se fala - ou tavez nada.

Disso tudo o que fica mais claro é que o Putin está com a máscara de democraciaa mas se comportando com o autoritarismo dos antigos líderes da URSS.

O caso da eleição na Ucrânia/envenenamentode Yushchenko, a briga com os chechênos e a censura a jornalistas mostra isso.

Inclusive a recente morte da jornalista que vinha sendo ameaçada.

Aliás, eles resolvem sempre assim: eliminam a pessoa e o problema.

Com esse lance do petróleo e do gás, há muitas chances de a Rússia surpreender muita gente que achava ela uma aristocrata quebrada e cheia de pose...

Escrito por: Khristofferson Silveira | outubro 26, 2006 03:45 PM

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