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outubro 24, 2006

O que tem acontecido no Iraque

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Bom, o caso do Iraque é bem semelhante ao do Afeganistão: um país inventado a partir duma ex-região colonizada pelo Império Britânico cujas fronteiras não foram desenhadas de acordo com as etnias e linguagens de lá e que por isso sempre foi ditatorial e/ou instável, e que por ser estratégica sofreu com vários conflitos e blá, blá, blá…

Mas, to cut a long story short, os problemas estruturais são mais ou menos semelhantes: a falta de um desenvolvimento social e a falta de um governo verdadeiramente democrático e secular. Sim, apesar da propaganda do governo George W. Bush, o governo do Irque também não é democrático de verdade. Na constituição do país os islã é declarado como base para toda a legislação, e nenhuma lei deve contrariar a sharia... pois é.

A diferença é que ao contrário do Afeganistão, até 2003 bem ou mal pelo menos havia alguma infra-estrutura social no Iraque. Que podia ser ditatorial, injusta e tudo o mais que já se sabe sobre o Saddam Hussein, mas pelo menos havia alguma coisa. E o que era mais importante, o governo no geral não misturava estado com religião e era secular (herança da velha ideologia baathista do nacionalismo árabe de Nasser — e é justamente por isso que a acusação da Casa Branca duma eventual aliança Iraque-Al-Qaeda sempre foi implausível). Até a queda do regime de Saddam podia-se ser cristão no Iraque sem maiores problemas, e inclusive haviam cristãos nas estruturas governamentais. Mas hoje em dia não-muçulmano no Iraque é correr o risco de ser morto se sair de casa. O governo George W. Bush se bobear pode acabar conseguindo o “prodígio” de acabar com os antigos assírios (que são cristãos) no Iraque, coisa que império nenhum conseguiu em milhares de anos de História…

Pois bem. O plano de guerra e ocupação do Iraque pelos EUA junto com a coalizão que lhe deu “legitimidade” não foi feita com um plano de construção de um país, e sim apenas pela destruição do que já existia, sem colocar nada no lugar. Todas as estruturas que funcionavam no governo anterior foram desmanteladas, e daí deu no que está dando. Dos saques aos museus de Bagdá à ocupação de todas as esferas do poder, oficial e paralelo, por guerrilheiros e fanáticos religiosos, vê-se que não dá para construir um país minimamente viável dessa maneira.

Hoje em dia as mulheres têm muito menos direitos no Iraque do que tinham em 2003, graças justamente ao islamismo que tomou conta da maior parte do país. Na infraestrutura geral tudo está destruído e arruinado. Há pessoas se matando nas ruas todos os dias aos montes: árabes xiitas versus árabes sunitas, os dois contra as tropas de ocupação, tropas oficiais e todos aqueles que forem não-muçulmanos ou curdos. O governo provisório sem se entender e sem saber o que fazer. Bom, se isso não for guerra civil…

Enfim, eu até suponho que uma solução razoável poderia ser conferir ampla autonomia ou até mesmo independência para a região curda do Iraque, e garantir ao centro e ao sul um governo árabe, mas secular e democrático que colocasse o bem da população acima de disputas religiosas. Mas eu isso que isso é sonho quixotesco meu — a paz e o equilíbrio não interessa a quem detém as armas e o poder lá. O inferno vai continuar.

Escrito por Marcelus G. Zalotti | outubro 24, 2006 05:59 AM

Comentário

Excelente trabalho .Vou dar o link para seus posts porque acho que todo mundo deve estudar dentro da nova ordem e seus subsidios sao benvindos.

Escrito por: Leia Beigler | novembro 26, 2006 04:16 PM

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