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outubro 24, 2006

O que tem acontecido no Afeganistão

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Não sei se você está sabendo, mas o Taleban está voltando a ter força no Afeganistão. Depois de anos e anos de “guerra ao terror” (aliás, algo que eu acho hoje em dia furado visto que terrorismo em si não é uma doença, e sim um sintoma), pelo jeito pouca coisa adiantou.

O que deu errado?

Vamos ter que voltar a 1919. Nesta época, na conclusão da I Guerra Mundial e do “Great Game Inglaterra X Rússia” na Ásia Central, foi criado o Afeganistão, que até então era administrado pelos ingleses. Assim como aconteceu com as colônias africanas da Europa que depois viraram problemáticos países independentes, as fronteiras do Afeganistão foram desenhadas para que povos problemáticos aos colonizadores como os Pashtuns fossem divididos ao meio pelas linhas de fronteira, fazendo com que a administração pela metrópole fique mais fácil de conduzir (sabe como é, menos soldados para patrulhar, menos balas para gastar, essas coisas).

Pois bem. Assim foi criado o Afeganistão multi-étnico, multi-linguístico e cheio de problemas que existe até hoje. Num caso como esse, onde durante muitos anos as fronteiras já foram definidas, fica difícil estabelecer alguma mudança neste aspecto, portanto a melhor saída para a questão seria o crescimento econômico aliado a um governo democrático, pluralista e secular. Afinal de contas ninguém ouve falar há um bom tempo de guerra civil na Bélgica, no Canadá ou na Suíça.

Só que isso nunca existiu no Afeganistão. Apesar de ser um país com um clima muito complicado (entre os desertos d areia e a neve das montanhas, basicamente) ele fica exatamente no meio da Ásia, próximo tanto da China da Índia e da Rússia, além de estar perto dos poços de petróleo do Irã e do mundo muçulmano-árabe. Isso faz daquela pobre região um pote de mel para os militares e políticos imperialistas, que sempre tentaram a todo custo impor seus favoritos no poder afegão a qualquer custo.

Bom, vamos agora avançar no tempo para 1978. O velho Brezhnev decide invadir o Afeganistão para ampliar a influência russa na região, com o intuito de quem sabe um dia dar à então União Soviética acesso ao Oceano Índico. A invasão é razoavelmente bem-sucedida numa primeira fase, e aí um governo comunista é instalado no Afeganistão, que já vinha fragilizado por uma série de crises e golpes de estado.

Só que os EUA não gostaram nem um pouquinho disso. Na época da Guerra Fria, da diplomacia a la Kissinger e da doutrina de “queremos os nossos filhos-de-uma-cadela no poder”, eles decidiram melar os planos soviéticos na região.

E aí eles criaram, financiaram e doutrinaram militarmente um grupo autodemonimado como os Mujahedins. Estes guerrilheiros muçulmanos fanáticos vindos dos países árabes e do vizinho Paquistão não tinham idéia de clara de política, não tinham idéia clara de Estado, não tinham idéia clara de governo. Eles só tinham três objetivos na cabeça: islã, guerra e o estabelecimento do califado baseado na interpretação fundamentalista da lei islâmica, a sharia. O governo comunista do Afeganistão podia ser comunista e muito pouco democrático, mas pelo menos era secular, e por isso não misturava estado com religião. Vi uma vez na Folha uma foto da Kabul de 1980 e era impressionante: mulheres andando nas ruas sem véus, de cabelos soltos, de camisa e vestido, homens de barba feita e terno e gravata... nada a ver com hoje em dia.

Pois bem: esses guerrilheiros fanáticos suportados com milhões em armas e dinheiro norte-americano com o tempo conseguiram o que queriam: destruíram o pouco de infra-estrutura e civilização que ainda existia no Afeganistão e finalmente impuseram seu (des)governo nos anos 90. Só que aí nessa altura do campeonato os EUA já não queriam nem mais saber, portanto deixou de dar dinheiro e ficou na sua. Afinal de contas, a Guerra Fria tinha acabado e já não interessava mais gastar dinheiro com isso.

Os Mujahedins acabaram se transmutando nos Talebans, que passaram a controlar totalmente o governo em 1996 e impuseram o que quiseram ao sofrido povo do Afeganistão sem maiores problemas até 2001. E entre aqueles que estiveram no país desde os anos 80 e que acompanhou todo esse processo de tomada do poder estava um guerrilheiro milionário árabe que mais tarde ia ser conhecido como Osama bin Laden. Mas isso é uma outra história que você já deve conhecer.

Pois bem. Em 2001 os EUA, liderando uma coalizão internacional para lhe dar legitimidade, invade o Afeganistão, arma uma guerra toda, derruba o Taleban e impõe um governo a serviço dele lá. Tudo parecia estar sob controle, se não fosse um detalhe: o Afeganistão nunca foi plenamente controlado pelas forças de coalizão nem nunca foi democrático de verdade, a despeito da propaganda do governo de George W. Bush.

E para mim o fator mais grave é justamente o da falta de real democracia. Como um governo pode ser democrático se ele baseia sua lei numa religião e o que é pior, não permite a liberdade de religião e nem de expressão baseado nisso? Isso pode ser tudo, menos democracia. E todo cientista politico e pessoa comum deve saber que não pode existir uma democracia de verdade sem uma separação entre igreja e estado. Period.

Para mim o fato de que no Afeganistão o fato da sharia ainda ter peso de lei e de que convertidos ao cristianismo podem ser condenados à morte pode sim ter um peso muito forte na questão da fragilidade do país. Assim como a produção e tráfico de heroína que acontece na região também.

Mas quem vai ter peito para mexer nessas duas coisas? As tropas estrangeiras que estão lá com certeza não vão ter. Aliás, acho que os soldados que estão lá querem mesmo é cair fora daquela região castigada pelo clima e pela História o mais rápido possível.

Escrito por Marcelus G. Zalotti | outubro 24, 2006 05:56 AM

Comentário

Muito esclarecedor esse post. Certos pontos que estavam um pouco nebuloso pra mim ficaram claros.

Com relação à saída das tropas, acho isso muito complicado, porque se eles saírem será criada uma oportunidade para o surgimento de outro governo fundamentalista, já que qualquer governo que não seja laico pode em dado momento ir para este lado.

Escrito por: Khristofferson Silveira | outubro 26, 2006 03:22 PM

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