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outubro 30, 2006

Às vezes eu acho que não há nada tão burro quanto os serviços de inteligência norte-americanos

Mais de 14 mil armas dadas pelos EUA sumiram no Iraque

Será difícil encontrar as armas desaparecidas: o Pentágono registrou o número de série de apenas umas 10.000 das 370.251 armas que forneceu

Escrito por Marcelus G. Zalotti | 03:37 PM | Comentários (2)

outubro 27, 2006

Juízes brasileiros a serviço da censura

Deu no site do Repórteres Sem Fronteiras:

Courts curb press coverage of elections on eve of second round

On the eve of the second round of Brazil’s general elections on 29 October, Reporters Without Borders today voiced concern about recent judicial rulings curbing press coverage of the campaign.

On 19 October, the federal Superior Electoral Court (TSE) fined CBN radio for “electoral propaganda” and ordered it to censor its website. On 25 October, the Regional Electoral Court (TRE) in the southern state of Paraná banned the media from reporting on a police raid at the request of a gubernatorial candidate.

“These judicial decisions reflect a very strange idea of the role of the press, which is obviously supposed to be a forum for political debate but which also entitled to take a position,” Reporters Without Borders said. “By banning all propaganda during election campaigns, the electoral law seems to be out of tune with media coverage of politics.”

The press freedom organisation added: “A media’s editorial position often entails a preference for a particular candidate, but the TSE’s ruling exaggeratedly assumes that every reader or listener will follow it. This attributes much more power to the press than it in fact has. As for the ruling issued by the Paraná TRE at the request of gubernatorial candidate Osmar Dias, it does not really serve his electoral interests. Does he think he will be protected by preventive censorship? This kind of censorship belongs to the past.”

The TSE fined CBN 10,000 dollars on 19 October after one of its commentators, Arnaldo Jabor, expressed an opinion that was deemed overly favourable to opposition presidential candidate Geraldo Alckmin. Acting in response to a complaint by President Luiz Inácio Lula da Silva’s reelection campaign, the TSE also ordered CBN to withdraw the comment from its website, ruling that it had violated an electoral law ban on all propaganda during the election campaign (which officially began on 1 July).

In response to Dias’ complaint, the Paraná TRE fine the Hora H News website on 25 October for publishing information about the seizure by the police of a trunk full of banknotes from a hotel in the state capital of Curitiba two days earlier. Judge Renato Lopes de Paiva ruled that the report was liable to “prejudice” Dias, who is tipped by the polls to lose.

Citing “judicial confidentiality,” the judge rounded off his ruling with a ban on all media coverage of the police raid. Journalists’ unions have contested the ruling, claiming that it violates the federal constitutional right of access to information.

É muito preocupante ver que muita gente no judiciário brasileiro ainda não leve em consideração a Constituição de 1988, que teoricamente baniu em definitivo a censura prévia.

Escrito por Marcelus G. Zalotti | 10:18 PM | Comentários (0)

outubro 24, 2006

O que tem acontecido - conclusão

Para o bem e para o mal, a tal “New World Order” preconizada por George Bush, o pai, coincidentemente em 11 de setembro de 1990, acabou. Agora o que manda é o duro multilateralismo um-contra-o-outro ou um-junto-com-o-outro dependendo das circunstâncias da ocasião.

É a volta do velho jogo da Realpolitik.

Escrito por Marcelus G. Zalotti | 06:25 AM | Comentários (2)

O que tem acontecido na Coréia do Norte

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Ao contrário de todo blá-blá-blá por aí, eu não acho que está acontecendo muita coisa não. Há um longo tempo se sabe que a Coréia do Norte tem um exército poderoso (ainda que a maior parte da população desarmada morra de fome) e arsenal nuclear, além de capacidade de produzir energia atômica desde os anos 1960, graças à ajuda soviética.

O que acontece é um imenso jogo de xadrez. Kim Jong-Il pode parecer louco, mas apenas é um líder totalitário metido a esperto que sabe jogar com as circunstâncias para obter vantagens delas. Ele, assim como as pessoas mais bem-informadas na questão, sabe que jamais sanções sérias serão impostas ao país dele porque dentre os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU querem uns querem furar os olhos dos outros. A China Comunista jamais vai querer uma Coréia unificada, democrática e capitalista, pois isso deixaria o poder dos EUA maior na região que ela quer ter controle econômico-político. Idem para a Rússia, que cada vez mais hoje em dia quer ver o Tio Sam e seus amiguinhos pelas costas.

E vale lembrar também que a proximidade de Pyongyang a Seoul, Pequim e Tóquio faz com que nenhum dos países da região queiram assim tão fácil uma guerra por lá.

Escrito por Marcelus G. Zalotti | 06:23 AM | Comentários (1)

O que tem acontecido na Geórgia

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Você já oubiu falar de um paisinho que fica no mar negro que era uma antiga provínc... ops, república soviética e que hoje em dia se chama Geórgia? Claro que não. Se você souber história da II Guerra Mundial, no máximo vai saber que Stalin nasceu lá. Já é um bom começo, talvez…

Mas enfim, o que interessa é que esta região do planeta, apesar de semi-desconhecida do público (afinal de contas, nenhuma série americana jamais foi gravado lá, nem Lost, nem 24 Horas, nem Alias...) tem um poder imenso de causar tretas muito sérias.

Explico: este paisinho, exatamente por sempre ter sido pequenino e ter sido pego de calças curtas, sem dinheiro, sem exército e sem armas para se defender com o fim da Guerra Fria (de uma maneira similar ao que aconteceu na Bósnia), acabou sendo invadido pelo antigo poder metropolitano, no caso a Rússia.

Essa invasão, resultado da guerra civil pós-independência que arrasou a Geórgia entre 1991 e 1993, deu a Moscou dois pedacinhos de territórios, mas estrategicamente de grande importância: a Abkházia (ou Abecásia, fica ao gosto do freguês) e a Ossétia do Sul. Originalmente essas duas regiões eram províncias internas semi-independentes (em comunistês, repúblicas socialistas autônomas) georgianas, mas que graças ao auxílio luxuoso das tropas russas acabaram virando “repúblicas não-reconhecidas” vinculadas extra-oficialmente à Rússia.

Pois bem. Essas duas regiões (que alguns dizem terem sido criadas durante os tempos da URSS devido aos princípios de “dividir para conquistar” do Kremlin) até antes da guerra tinham uma população que em sua maior parte era georgiana e queria continuar na Geórgia. Então por que isso não aconteceu?

Não aconteceu basicamente porque a Rússia sempre achou que precisava de territórios ao sul da cordilheira dos Montes Cáucasos e acesso à área do Mar Negro também ao sul destas montanhas para possivelmente formar uma “cabeça de ponte” estratégica em eventuais futuras guerras na Ásia e Europa. E para de quebra manter a Geórgia sob controle e influência contínuos também.

E foi aí que o separatismo abkházio e ossético na Geórgia nasceu, o primeiro baseado numa limpeza étnica no pior estilo Milosevic (é engraçado ver com as coisas se inter-relacionam), o segundo baseado num governo-fantoche que apesar de clamar toda a região domina algo por volta de metade dela.

Estes dois estados separatistas se parecem com mini-Uniões Soviéticas, à maneira do seu estado-não-reconhecido irmão, a Transnístria. E segundo porque, da mesma forma que acontece na região separatista da Moldávia, há todo um doublespeak dos líderes destas regiões fiéis a Moscou que falam a respeito de “independência” e “auto-determinação” quando tudo que querem mesmo é que seus territórios sejam anexados à Rússia.

Bom, tudo parecia correr num processo de conflito frio estilo taiwanês/cipriota na ex-república soviética até quando os EUA em 2003 decidiu apoiar um golpe de estado após resultados fraudulentos das eleições na Geórgia, que trouxe ao poder através da “Revolução Rosa” o atual presidente georgiano Mikheil Saakashvili, que estudou direito nos EUA e prometeu trazer a democracia de volta à Geórgia, integrá-la às instituições européias e... trazer de volta ao comando central as províncias separatistas. Foi aí que o batata começou a esquentar.

O novo governo da Geórgia até conseguiu restabelecer sem maiores problemas há dois anos atrás o controle sobre uma terceira província separatista, a Adjária, que na verdade era um feudo pessoal de um cara chamado Aslan Abashidze, que deixava seu filho passear de Lamborghini pelas avenidas de Batumi.

Mas quando chegou o caso da Abkházia e da Ossétia do Sul, a Rússia engrossou. Usando o velho e bom doublespeak de sempre, o governo russo disse “respeitar a integridade territorial da Geórgia”, mas ao mesmo tempo dizendo que “os abkházios e osséticos têm direito a auto-determinação”… dentro da Rússia, claro.

Tropas russas e políticos de origem russa ex-funcionários da KGB soviética controlam com mãos de ferro todos os governos separatistas destas duas províncias, e dizem que não vão sair de lá até um “acordo de estabilização” seja feito — traduzindo, eles nunca vão sair de lá voluntariamente, principalmente porque eles seguem ordens de Moscou, que deu de graça milhares de passaportes russos para os habitantes destas regiões durante estes anos todos e agora se diz “no dever de proteger seus compatriotas”.

Os EUA e a Europa, como é comum de acontecer, estão no geral paralisados diante disso tudo, sem saber muito o que fazer porque hoje em dia além da presença mundial norte-americana ter sido imensamente enfraquecida desde os ataques de 11 de setembro, a Rússia hoje além de armas nucleares possui petróleo e gás de sobra para vender ao mundo desenvolvido, que a despeito de qualquer discurso oficial tem ânsia imensa de consumir cada vez mais combustível fóssil (e melhor ainda para eles se esse combustível fóssil vier de um país majoritariamente não-islâmico fora da OPEP).

O poder dos petro-dólares molha muitas mãos, e abrandam muitos discursos. A Europa Ocidental, cujo eixo central Franco-Alemão quer mais mesmo é gás barato da Rússia, pouco está fazendo além de dizer para Geórgia e Rússia “manterem a calma”, mas sem apontar uma saída clara para a questão. Enquanto isso os EUA, que a princípio apoiaram e continuam apoiando a Geórgia (nem que seja “moralmente”, afinal de contas eles não querem entrar em confronto com a Rússia), também diz para os dois lados se conterem, mas não falando muita coisa além disso também.

Enfim. A situação hoje em dia é que a Rússia está usando de qualquer desculpa para estrangular economicamente a Geórgia o máximo possível, e fazendo de tudo para que os líderes e a imprensa mundiais acreditem que quem está provocando tudo isso é a “ditadura fascista expansionista” da Geórgia.

Para mim, tudo isso tem um tremendo cheiro de guerra (e/ou de intervenção sem reclamações do mundo ocidental desenvolvido) que está para acontecer.

Escrito por Marcelus G. Zalotti | 06:06 AM | Comentários (1)

O que tem acontecido no Iraque

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Bom, o caso do Iraque é bem semelhante ao do Afeganistão: um país inventado a partir duma ex-região colonizada pelo Império Britânico cujas fronteiras não foram desenhadas de acordo com as etnias e linguagens de lá e que por isso sempre foi ditatorial e/ou instável, e que por ser estratégica sofreu com vários conflitos e blá, blá, blá…

Mas, to cut a long story short, os problemas estruturais são mais ou menos semelhantes: a falta de um desenvolvimento social e a falta de um governo verdadeiramente democrático e secular. Sim, apesar da propaganda do governo George W. Bush, o governo do Irque também não é democrático de verdade. Na constituição do país os islã é declarado como base para toda a legislação, e nenhuma lei deve contrariar a sharia... pois é.

A diferença é que ao contrário do Afeganistão, até 2003 bem ou mal pelo menos havia alguma infra-estrutura social no Iraque. Que podia ser ditatorial, injusta e tudo o mais que já se sabe sobre o Saddam Hussein, mas pelo menos havia alguma coisa. E o que era mais importante, o governo no geral não misturava estado com religião e era secular (herança da velha ideologia baathista do nacionalismo árabe de Nasser — e é justamente por isso que a acusação da Casa Branca duma eventual aliança Iraque-Al-Qaeda sempre foi implausível). Até a queda do regime de Saddam podia-se ser cristão no Iraque sem maiores problemas, e inclusive haviam cristãos nas estruturas governamentais. Mas hoje em dia não-muçulmano no Iraque é correr o risco de ser morto se sair de casa. O governo George W. Bush se bobear pode acabar conseguindo o “prodígio” de acabar com os antigos assírios (que são cristãos) no Iraque, coisa que império nenhum conseguiu em milhares de anos de História…

Pois bem. O plano de guerra e ocupação do Iraque pelos EUA junto com a coalizão que lhe deu “legitimidade” não foi feita com um plano de construção de um país, e sim apenas pela destruição do que já existia, sem colocar nada no lugar. Todas as estruturas que funcionavam no governo anterior foram desmanteladas, e daí deu no que está dando. Dos saques aos museus de Bagdá à ocupação de todas as esferas do poder, oficial e paralelo, por guerrilheiros e fanáticos religiosos, vê-se que não dá para construir um país minimamente viável dessa maneira.

Hoje em dia as mulheres têm muito menos direitos no Iraque do que tinham em 2003, graças justamente ao islamismo que tomou conta da maior parte do país. Na infraestrutura geral tudo está destruído e arruinado. Há pessoas se matando nas ruas todos os dias aos montes: árabes xiitas versus árabes sunitas, os dois contra as tropas de ocupação, tropas oficiais e todos aqueles que forem não-muçulmanos ou curdos. O governo provisório sem se entender e sem saber o que fazer. Bom, se isso não for guerra civil…

Enfim, eu até suponho que uma solução razoável poderia ser conferir ampla autonomia ou até mesmo independência para a região curda do Iraque, e garantir ao centro e ao sul um governo árabe, mas secular e democrático que colocasse o bem da população acima de disputas religiosas. Mas eu isso que isso é sonho quixotesco meu — a paz e o equilíbrio não interessa a quem detém as armas e o poder lá. O inferno vai continuar.

Escrito por Marcelus G. Zalotti | 05:59 AM | Comentários (1)

O que tem acontecido no Afeganistão

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Não sei se você está sabendo, mas o Taleban está voltando a ter força no Afeganistão. Depois de anos e anos de “guerra ao terror” (aliás, algo que eu acho hoje em dia furado visto que terrorismo em si não é uma doença, e sim um sintoma), pelo jeito pouca coisa adiantou.

O que deu errado?

Vamos ter que voltar a 1919. Nesta época, na conclusão da I Guerra Mundial e do “Great Game Inglaterra X Rússia” na Ásia Central, foi criado o Afeganistão, que até então era administrado pelos ingleses. Assim como aconteceu com as colônias africanas da Europa que depois viraram problemáticos países independentes, as fronteiras do Afeganistão foram desenhadas para que povos problemáticos aos colonizadores como os Pashtuns fossem divididos ao meio pelas linhas de fronteira, fazendo com que a administração pela metrópole fique mais fácil de conduzir (sabe como é, menos soldados para patrulhar, menos balas para gastar, essas coisas).

Pois bem. Assim foi criado o Afeganistão multi-étnico, multi-linguístico e cheio de problemas que existe até hoje. Num caso como esse, onde durante muitos anos as fronteiras já foram definidas, fica difícil estabelecer alguma mudança neste aspecto, portanto a melhor saída para a questão seria o crescimento econômico aliado a um governo democrático, pluralista e secular. Afinal de contas ninguém ouve falar há um bom tempo de guerra civil na Bélgica, no Canadá ou na Suíça.

Só que isso nunca existiu no Afeganistão. Apesar de ser um país com um clima muito complicado (entre os desertos d areia e a neve das montanhas, basicamente) ele fica exatamente no meio da Ásia, próximo tanto da China da Índia e da Rússia, além de estar perto dos poços de petróleo do Irã e do mundo muçulmano-árabe. Isso faz daquela pobre região um pote de mel para os militares e políticos imperialistas, que sempre tentaram a todo custo impor seus favoritos no poder afegão a qualquer custo.

Bom, vamos agora avançar no tempo para 1978. O velho Brezhnev decide invadir o Afeganistão para ampliar a influência russa na região, com o intuito de quem sabe um dia dar à então União Soviética acesso ao Oceano Índico. A invasão é razoavelmente bem-sucedida numa primeira fase, e aí um governo comunista é instalado no Afeganistão, que já vinha fragilizado por uma série de crises e golpes de estado.

Só que os EUA não gostaram nem um pouquinho disso. Na época da Guerra Fria, da diplomacia a la Kissinger e da doutrina de “queremos os nossos filhos-de-uma-cadela no poder”, eles decidiram melar os planos soviéticos na região.

E aí eles criaram, financiaram e doutrinaram militarmente um grupo autodemonimado como os Mujahedins. Estes guerrilheiros muçulmanos fanáticos vindos dos países árabes e do vizinho Paquistão não tinham idéia de clara de política, não tinham idéia clara de Estado, não tinham idéia clara de governo. Eles só tinham três objetivos na cabeça: islã, guerra e o estabelecimento do califado baseado na interpretação fundamentalista da lei islâmica, a sharia. O governo comunista do Afeganistão podia ser comunista e muito pouco democrático, mas pelo menos era secular, e por isso não misturava estado com religião. Vi uma vez na Folha uma foto da Kabul de 1980 e era impressionante: mulheres andando nas ruas sem véus, de cabelos soltos, de camisa e vestido, homens de barba feita e terno e gravata... nada a ver com hoje em dia.

Pois bem: esses guerrilheiros fanáticos suportados com milhões em armas e dinheiro norte-americano com o tempo conseguiram o que queriam: destruíram o pouco de infra-estrutura e civilização que ainda existia no Afeganistão e finalmente impuseram seu (des)governo nos anos 90. Só que aí nessa altura do campeonato os EUA já não queriam nem mais saber, portanto deixou de dar dinheiro e ficou na sua. Afinal de contas, a Guerra Fria tinha acabado e já não interessava mais gastar dinheiro com isso.

Os Mujahedins acabaram se transmutando nos Talebans, que passaram a controlar totalmente o governo em 1996 e impuseram o que quiseram ao sofrido povo do Afeganistão sem maiores problemas até 2001. E entre aqueles que estiveram no país desde os anos 80 e que acompanhou todo esse processo de tomada do poder estava um guerrilheiro milionário árabe que mais tarde ia ser conhecido como Osama bin Laden. Mas isso é uma outra história que você já deve conhecer.

Pois bem. Em 2001 os EUA, liderando uma coalizão internacional para lhe dar legitimidade, invade o Afeganistão, arma uma guerra toda, derruba o Taleban e impõe um governo a serviço dele lá. Tudo parecia estar sob controle, se não fosse um detalhe: o Afeganistão nunca foi plenamente controlado pelas forças de coalizão nem nunca foi democrático de verdade, a despeito da propaganda do governo de George W. Bush.

E para mim o fator mais grave é justamente o da falta de real democracia. Como um governo pode ser democrático se ele baseia sua lei numa religião e o que é pior, não permite a liberdade de religião e nem de expressão baseado nisso? Isso pode ser tudo, menos democracia. E todo cientista politico e pessoa comum deve saber que não pode existir uma democracia de verdade sem uma separação entre igreja e estado. Period.

Para mim o fato de que no Afeganistão o fato da sharia ainda ter peso de lei e de que convertidos ao cristianismo podem ser condenados à morte pode sim ter um peso muito forte na questão da fragilidade do país. Assim como a produção e tráfico de heroína que acontece na região também.

Mas quem vai ter peito para mexer nessas duas coisas? As tropas estrangeiras que estão lá com certeza não vão ter. Aliás, acho que os soldados que estão lá querem mesmo é cair fora daquela região castigada pelo clima e pela História o mais rápido possível.

Escrito por Marcelus G. Zalotti | 05:56 AM | Comentários (1)

O que tem acontecido em Kosovo

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Vem cá... o que você estava fazendo em 1389?

Ué, nada, afinal de conta nem eu nem você existíamos. Mas para a cabeça de muita gente na igreja e na política sérvia (e infelizmente, muitos na população da Sérvia também), todos estavam naquele ano “defendendo a civilização européia cristã das garras do islã jihadista turco na batalha de Kosovo Polje”.

Parece estranho, né? Pois é, parece. Mas é exatamente isso que está emperrando o debate todo a respeito da independência formal de Kosovo. Falando sério, a ex-região da Iugoslávia já é independente desde 1999, e mais de 90% dos que vivem lá há muito tempo já não têm mais hoje em dia nada a ver com a Sérvia ou com os sérvios.

Mas é aquele lance... na cabeça de alguns 1389 ainda é hoje. Muitos sérvios, apoiados pelos espertinhos políticos da Rússia (que sempre sentiram simpatia pela Sérvia, que por ser eslávica e ortodoxa sempre foi vista por eles como uma “pequena e fiel Rússia do Sul”), ficam dizendo que Kosovo é uma “terra tradicionalmente sérvia”, “o berço da civilização sérvia”, “o ponto de resistência da civilização européia” e outras besteiras religiosas do gênero.

Agora, o problema é que, graças à pressões geopolíticas vindas principalmente da Rússia (que é uma potência nuclear), as conversas sobre Kosovo estão emperrando... já não se está dizendo em dar independência à província administrada pela ONU desde 1999 (depois da guerra que evitou que as tropas de Milosevic, sempre ele, dizimasse a população local) ainda para este ano.

Bom, só digo uma coisa: se a ONU não der voz à razão neste caso, problemas mais sérios chegarão com certeza no futuro dos kosovares.

Escrito por Marcelus G. Zalotti | 05:52 AM | Comentários (0)

O que tem acontecido na Bósnia

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Imagine um lugar onde tudo é segregado: ruas, escolas, faculdades, lojas, estradas, placas de estrada, enfim, tudo. Imagine um lugar onde as pessoas à primeira vista têm a mesma cor, aparência, jeito de se portar e que falam a mesma língua, mas que por possuírem a algo que essas pessoas auto-denominaram “diferença étnica” não convivem entre si e se detestam mutuamente, mesmo vivendo a poucos metros um do outro. Imagine um lugar onde você pode ser morto a bala ou a pauladas se você estiver no lado “errado” da cidade. Imagine um lugar onde as nações são definidas pelo primeiro nome ou pela religião de uma pessoa, sem espaço algum para a não-religiosidade, secularismo ou ao menos um mínimo de razão.

Este lugar existe em 2006, em plena Europa supostamente “civilizada”. E se chama Bósnia-Herzegovina, a antiga província (em comunistês: “república independente constituinte”) da Iugoslávia, o país que não existe mais.

A coisa foi assim: até a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética, todo mundo na Bósnia vivia em paz. O governo, apesar de comunista e ditatorial, assegurava uma convivência pacífica graças à política dura de secularização do estado, que garantia que a religião não tivesse lugar nas decisões políticas. Os bósnios muçulmanos, ortodoxos e católicos, apesar de terem vindo de três “matrizes etno-culturais” diferentes (Império Otomano, Império Bizantino e Império Austro-Húngaro, respectivamente) conviviam entre si, casavam-se entre si, faziam amizades entre si. E todo mundo estudava o mesmo idioma servo-croata nas escolas e praticamente ninguém se importava muito com isso.

Bom, era assim até 1991. Mas aí a Bósnia decidiu declarar independência e… o monstro do nacionalismo religioso surgiu.

Arquitetados por políticos da estirpe de Franjo Tudjman (da Croácia), criou-se uma guerra civil na Bósnia com a intenção final de acabar com ela e dividi-la em pequenos territórios cujo butim seria aproveitado pelos dois países “amigos” ao seu redor.

Mas tinha um problema: a Bósnia sempre foi um lugar onde as pessoas se misturavam, esse plano não seria possível a não ser que uma guerra que gerasse terror e ódios internos fosse feita.

E aí se fez. De repente os bósnios de origem muçulmana viraram “baratas turcas traidoras que não merecem viver na Terra”, os bósnios católicos em “croatas” e os bósnios ortodoxos em “sérvios”. De repente uma linguagem virou três da noite para o dia: ninguém mais falava “sérvio-crota, esta linguagem artificial imposta por Tito” e sim bósnio, croata e sérvio. Mesmo que ninguém tenha de fato mudado uma palavra de sua fala no dia-a-dia.

Como a Sérvia tinha herdado a maior parte do exército iugoslavo, a Croácia uma parte e a Bósnia em si quase nada, a guerra foi conduzida por estes primeiros para destruir e retalhar a província que tinha acabado de se tornar um país. Estupros em massa, campos de concentração, matança de civis na rua, cidades sitiadas, massacres. Tudo debaixo do nariz dos governos da Europa Ocidental, que preferia não fazer nada pois tinha coisas mais importantes a fazer do que preservar a dignidade de seres humanos pobres…

Pois bem. Como as televisões do mundo todo já estava noticiando demais a guerra toda na Iugoslávia/Bósnia e a coisa já estava começando a ficar embaraçosa (e também com medo da imensa massa de refugiados que poderia virar “desagradáveis imigrantes ilegais”) depois de quase meia década de conflito e centenas de milhares de mortos depois, resolveu-se fazer alguma coisa.

Mas quem tomou a iniciativa de fazer não foi a Europa, foi o governo dos EUA que depois trouxe a Europa junto à mesa de negociações.

Só que fizeram errado.

Comprando totalmente a idéia das partes do conflito de que “religião=nacionalidade”, em 1995 eles dividiram a Bósnia em duas repúblicas independentes e completamente impossíveis de se unificar: a “República Sérvia da Bósnia” (estranho nome oficial: “Republika Srpska”) e a “Federação Croato-Muçulmana da Bósnia-Herzegovina”.

A partir daí, a separação e segregação de pessoas na Bósnia cavada a custo de bala e atrocidades se solidificou. Alguns agentes da guerra foram pubidos, outros estão foragidos até hoje, mas vários dos políticos e militares bósnios que participaram de toda a barbárie não foram punidos, e sim recompensados, e muitos estão no poder ainda hoje. E dentro da própria “Federação Croato-Muçulmana da Bósnia-Herzegovina” há separação entre católicos e muçulm... ops, entre “a nacionalidade croata” e a “nacionalidade bosniak”. Como na cidade de Mostar, literalmente dividida ao meio por uma bela ponte mas que ninguém de lá ousa cruzar.

Hoje em dia, a Bósnia teoricamente é uma democracia, mas na verdade é um país divido artificialmente em duas zonas (uma delas dividida em duas sub-zonas) que funcionam ainda mais ou menos como mini-ditaduras corruptas de partido único, porque os partidos dominantes não existem para representar idéias racionais e sim relig... ops, “identidades nacionais milenares”.

E os poderes que ainda hoje tomam conta da Bósnia, depois de todos estes anos, não têm idéia do que fazer com aquele infeliz e dividido pedaço de terra no Leste Europeu. Os acordos de paz firmados em 1995 paradoxalmente impedem qualquer tipo de negociação que conduza à unidade e à harmonia do país.

E assim a Bósnia (não) vai, com a separação cada vez mais cruel e a perspectiva de retomada da guerra civil sempre no horizonte.

Escrito por Marcelus G. Zalotti | 05:49 AM | Comentários (2)

outubro 21, 2006

Algo sobre geopolítica

Bom, eu pretendo escrever aqui alguns posts sobre assuntos relacionados à geopolítica internacional, mas eu sei que este tipo de assunto não gera praticamente interesse nenhum do brasileiro internauta médio, que quer mesmo saber mais é dos episódios da 3ª temporada de “Lost” (que eu não estou acompanhando, porque como sou um apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco e sem TV por assinatura nem um computador novo o suficiente para exibir DivX a 640X480 com áudio sincronizado e 24 frames por segundo) ou quiçá outros assuntos de alta relevância, como a escalação da próxima edição do BBB ou do novo “publicity stunt” da Daniella Cicarelli.

Mas enfim. Eu sei que os próximos posts não vão interessar a praticamente ninguém e por isso não irão gerar comentário nenhum. Mas mesmo assim eu vou escrever.

Escrito por Marcelus G. Zalotti | 01:02 PM | Comentários (2)

outubro 18, 2006

Charge do Angeli

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(via Catarro Verde)

Escrito por Marcelus G. Zalotti | 11:32 PM | Comentários (0)

outubro 17, 2006

Mais de 1 mês sem postar aqui.

Nossa.

Não é que eu não tenha algo a escrever aqui, mas acabo ficando com aquela coisa de escrever “o post” certo “na hora certa” e… nisso eu acabo enrolando e não escrevendo nada.

Escrito por Marcelus G. Zalotti | 09:55 PM | Comentários (0)